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Opinião | 08-08-2012
NOTAS SOLTAS Por António Taveira
1.As mudanças
A conjugação dos meus deveres familiares com a vida profissional, uma pré-reforma, leva-me a uma deslocação semanal à capital. Sem paragem, com uma velocidade constante cerca dos 130km/h, a viagem faz-se em três horas e meia.

Boa música, debates na rádio, noticiários, e o carro a deslizar suavemente pelas magníficas auto-estradas, A8, A17, A25, A24 e espero que brevemente A4, transformam uma estopada num agradável passeio. E enquanto a viatura vai comendo quilómetros, apenas perturbada pela mania de muitos condutores de só circularem pela faixa do meio, penso no sacrifício que milhões de portugueses têm de fazer para me patrocinarem o conforto destas viagens. E penso nos muitos milhares que por este Portugal fora teimosamente se recusam a pagar as portagens e preferem gastar a poupança no maior consumo da gasolina, no desgaste dos pneus e travões e no bem precioso que é o tempo. Se a estupidez pagasse imposto as contas públicas tinham um superavit.

Hoje as localidades portuguesas, como a distância se mede em tempo e não em quilómetros, estão significativamente mais perto. Logo há que redesenhar toda a distribuição dos equipamentos, justiça, saúde, educação, desporto, que naturalmente serão mais centralizados, menos mas melhores. Continuar a obstruir a mudança é mais um sinal da nossa mediocridade. Mas não é ao nível das freguesias que o problema se coloca, deixem-nas em paz e comecem a eliminar umas largas dezenas de municípios. Assim os nossos impostos agradecem.

2.Regionalização
A vida em Espanha não está fácil, são os bancos, o estado e as várias Madeiras que por lá existem. É muito resgaste. Portugal vai-se governando com uns dezenas de milhares de milhões, para Espanha devem ser precisos umas centenas de milhares de milhões de euros, é muita fruta!

Ao termos conhecimento da situação financeira de muitas das regiões autónomas espanholas trememos, só de pensar o que seria Portugal se há uma dúzia de anos a regionalização tem passado. Num período de vacas gordas e loucas, teria sido fartar vilanagem. Obrigado Dr. Marcelo Rebelo de Sousa, o grande paladino da derrota da regionalização.

3.O orçamento
Desde o dia em que foi anunciado este governo, que nele depositámos uma grande confiança. Portugal precisava de gente humilde, transparente e honesta para a hercúlea tarefa de nos tirar do buraco. Se as três qualidades que mencionámos são facilmente identificadas, já a competência para uma função não é de identificação tão óbvia. E é na competência que este governo por vezes nos desilude. O exemplo mais gritante é a subida da taxa do IVA na restauração, e temos agora o possível desvio de dois mil milhões de euros no orçamento deste ano, não por derrapagem na despesa, onde o governo está de parabéns, mas por erro na receita prevista. E aqui é que o problema se põe. Como é possível alguém, com as medidas de austeridade implantadas, prever uma subida de receita de IVA de 11,2 %? Qualquer mediano economista formado na Católica não arriscaria uma subida acima de 2,5%. A queda de 1,8% tem de ser analisada face a valores da mesma ordem, mas positivos, e nunca com os lunáticos 11,6 %. A classe média, a grande responsável pelo consumo, logo a principal pagadora de impostos, viu os seus rendimentos caírem acima dos 15 % e o seu poder de compra, com a subida de impostos, cair próximo dos 25%. E em anos anteriores o consumo foi suportado pelo subida dos plafonds no cartão de crédito. O senhor ministra das finanças veio de Marte?

Sem a ajuda de modelos informáticos, nem técnicos especializados, em 21 de Setembro do ano passado nas minhas Notas Soltas escrevi a este propósito um artigo que terminava “ avisem o Victor Gaspar “, em meia dúzia de linhas de fácil leitura estava lá tudo, mas ninguém se deu ao trabalho de o avisar! Foi pena.

4.Parabens
Em período de férias o governo brindou-nos com algumas boas noticiam. As fundações, as condições de nomeação para as comissões reguladoras, as PPP… O tribunal constitucional deu uma ajudinha ao pressionar no tempo e ao querer uma mais equitativa distribuição dos sacrifícios, mas o governo foi fazendo o trabalhinho de casa.
Uns parabéns muito especiais ao Sr. Primeiro-ministro pela ação política junto do governo angolano, que ajudou a desbloquear o caso do BPN. Entendo que na sua posição o Sr. Primeiro-ministro não posso mandar as gentes do BE e do PCP aquela parte, mas mando-os eu por si.

5.Os bons velhos tempos
Há muito que me intrigava a razão de se andar a comer tão mal em terras lusas, Vila Real não é exceção. Que saudades da Abadia, do Palmeiras, dos Irmãos Unidos, e aqui mais perto da Areias, da Marisqueira do Acácio … Ao cismar porque só no Aleixo de Campanhã consigo, nos dias de hoje, comer um bife 5 estrelas, iguaria do melhor em qualquer tasquinha de há 50/60 anos, julgo ter encontrado a resposta. Naquele tempo não havia o hábito de comer fora, e quando tal acontecia era porque o que íamos comer justificava o propósito. Hoje comer fora banalizou-se, e a necessidade de o fazer tirou lugar ao prazer de o comer.

Quando discutia com o amigo Mário esta minha descoberta, logo me nomeou diversos locais de boas postas. Não falo de postas, falo de bifes. A moda da posta não é mais que a desculpa de não haver bifes.

No sábado às 19 horas ia jogar o meu Sporting, e a Sport TV mais próxima era na rua Central, restaurante Status. Quando me preparava para escolher o que fosse menos mau, a simpatia dos responsáveis levou-me a falar do drama dos bifes e veio o desafio. Aceitei arriscar mas na condição de falar com o cozinheiro. Pretensão satisfeita e faço a exigência: tenra, cordão de gordura, 2 cm de espessura, chapa em “brasa”, mal passada … Apesar da primeira contrariedade, a carne já estava preparada e não havia gordura, arrisquei mandar seguir o bife. Maravilha. Agora o patrão quer que eu volte para comer a posta da casa, eu quero voltar para outro bife mas com o cordão de gordura. Ao Status as minhas desculpas pelos pensamentos com que entrei e o muito obrigado pela satisfação com que saí, até esqueci a derrota do Sporting.

Espero nos próximos tempos sentir o mesmo em outros restaurantes da Bila, onde irei procurar o meu bife.

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