| Quando há alguns meses o governo se mostrou muito admirado pela evolução da taxa de desemprego, para valores nunca dantes alcançados, terá ficado em muitos portugueses um amargo sabor a algum descontrole governativo. Previsível o aumento do desemprego, sim. Mas para taxas tão elevadas, é surpreendente, rezava assim o simpático dr. Vitor Gaspar. Quando agora mais recentemente foram publicados os dados do exercício orçamental dos primeiros 5 meses do ano, uma vez mais se assistiu a uma interrogação dos responsáveis governativos. Não contavam com tanta descida no IRC e no IVA. Tinham feito estimativas muito mais animadoras, e nas projeções feitas no Orçamento Geral do Estado era inequívoco que com a subida das taxas, iria haver muito mais coleta.
Mas será que esta história dá para acreditar ?. Seria possível que com o aumento do desemprego, o fecho diário de dezenas de empresas, o aumento exponencial dos montantes dedicados ao apoio dos desempregados, iríamos ter aumento da coleta ? Será que o dr. Vitor Gaspar acreditava nisso ?
Um ano de execução do plano dos contabilistas da Troyka dá para perceber que estes senhores se enganaram redondamente nas características da economia portuguesa, e prescreveram uma receita que já traziam na mala desde o resgate da Grécia, e deu para perceber também que com este comportamento de bons e alinhados alunos não vamos lá.
Na fase atual do campeonato, temos que entender que o jogo está demasiado inclinado e que mantendo esta estratégia e esta tática, a consequência será desastrosa. Desastrosa para nós e para toda a Europa. Um a um os países vão acabar por cair nas teias dos mercados, ou seja, nas teias da especulação financeira. Um a um os países serão obrigados a pagar taxas de juros incomportáveis, e um a um, os países vão ter que entrar num processo de austeridade sobre austeridade, restringindo direitos, regalias, degradando profundamente a qualidade de vida e a proteção social.
Repare-se neste caminho. Há 20 anos foi iniciado um processo de industrialização dos países orientais com capitais ocidentais e capitais dos estados, como o estado chinês. Em dez anos, a maioria da indústria transformadora da Europa e dos USA foi transferida para o oriente. Os financeiros entraram num autêntico “el dourado”. Passaram a fabricar tudo e mais alguma coisa com custos de produção baixíssimos, com mão de obra escrava, e com total desrespeito pelo ambiente. A acumulação de mais valias tem sido astronómica. Na China acumulam-se fortunas no estado, nos novos capitalistas chineses e nos capitalistas ocidentais. O mercado livre e sem qualquer restrição que se estabeleceu desde 2005 consolidou ainda mais este modelo.
E os nossos intelectuais de pacotilha chegaram mesmo a teorizar sobre este novo mundo global. O ocidente teria os serviços, o turismo, a gestão, a inteligência, e os orientais teriam a indústria transformadora, a produzir produtos mais baratos e a alimentar o consumismo ocidental. Lindo…. Nada de taxas alfandegárias, tudo livre, até porque o oriente é um grande mercado para os produtos de grande valor acrescentado, estes sim feitos apenas no ocidente. Lindo….
A realidade hoje mostra que por exemplo a China está a dominar o mercado mundial, não só em produtos baratos mas também já se equipara com a Alemanha e os USA, na maquinaria. A realidade hoje mostra que os países ocidentais fabricam cada vez menos. Todos eles têm cada vez mais desemprego e todos eles, incluindo os USA, estão cada vez com mais dívidas e cada vez mais pobres.
É claro que hoje os políticos não mandam rigorosamente nada. É a gente da massa, da alta finança que põe e dispõe. É a esta alta finança usurária ocidental e chinesa que interessa este estado de coisas. É ela que deprecia os ratings dos países, é ela que sobe as taxas de juro, é ela que compra grandes empresas, é ela que impõe regras ao FMI e ao BCE, é ela que empresta dinheiro.
E nós, como meninos do coro nem ao menos temos um pensamento, uma política, uma posição, uma ideia a apresentar a todos os outros países que estão no mesmo saco. Esta globalização desregulada é uma mentira, uma vigarice, um ultraje, Ela é a raiz da nossa desgraça. |