Na Crista da Onda: TSU – Guerra dos tronos

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Ai Leopoldina, olha-me este país. Estivemos uns dias de férias fora, sem televisões nem jornais cá da terra, regressámos a Nogueira, ligamos a tv e assistimos a isto. Olha-me só…

– Queres dizer que vivíamos mais descansados se não fossemos bombardeados minuto a minuto com estas cenas? Tens bom remédio. Tu, pessoa de teatro de outra espécie não passas sem este circo.

– Ora aí está. Teatro-circo, pois. O Parlamento português – talvez qualquer parlamento – é um teatro, onde os actores passam e perpassam, riem, gesticulam, insinuam, fazem esgares, dizem pilhérias e dichotes, ameaçam, vociferam, às vezes, insultam. Falta-lhes o pensamento profundo. Aqui há pateadas e batem-se palmas. Há os «heróis» e os «vilões» , os santos, ou os que estão à espera de serem santificados, e os estupores. Todos mudam frequentemente de máscara e assumem os papeis contrários. As peças são tragicomédias. Metade drama, metade comédia. Enquanto uns exprimem raiva, outros, ao mesmo tempo, riem. E vice-versa. O cinismo, não a dor ou a morte, é uma das características marcantes, das mais benquistas dos actores. Todos são portadores da verdade, dizem. Como nós não soubéssemos que cada um constrói a sua verdade

– Logo não uma só verdade nem uma só realidade. Já dizia Marco Aurélio: “Tudo o que ouvimos é uma opinião não um facto”.

– Onde é que leste isso? – Leopoldina encolheu os ombros, sem responder. – Este teatro, pois, – continuou António Maria – parece, em alguns momentos, uma arena romana. Todos são gladiadores a lutar pela sobrevivência. Nada que nos admire se nos lembrarmos do deputado de Caçarelhos da Queda de um Anjo de Camilo, ou do Conde d’ Abranhos de Eça de Queirós.

– Ah! Também andas a ler umas coisas…

– Não. Já li esses livros há muito. Alguma coisa me ficou. A comédia a que se assistimos foi a discussão da TSU. Então e ali, naquele semicírculo, luta-se com língua afiada por mais um euro por dia a atribuir a 650 mil trabalhadores, gente pobre a poder comprar mais um quilo de arroz, um bife, uns ovos ou para ajudar a pagar a água, a luz ou outra coisa qualquer. Se bem que a questão seja a TSU, o amago da questão está, para o PSD, no aumento de salário que, pela voz do seu líder, considerava exagerado. Mortal.

– Mortal para quem? – questionou Leopoldina.

– Para o PSD. O PSD foi acusado de fazer piruetas, o que não deixa de ser um bom número de circo, de não querer ser muleta do PS para se oferecer como trotineta do PCP e do BE, inimigos a quem, normalmente, cerra os dentes. Eis, pois, Pedro a comer com aqueles a que considera lobos, quiçá publicanos, mal cheirosos… E desta vez sem vomitar. À geringonça foi ele oferecer uma laranja ácida, melhor, uma «pessa» corroída. E os seus apaniguados gostaram da trapaça. Afinal a política também vive dela. É como os banqueiros, os empresários fugirem ao fisco e colocarem dinheiro nos paraísos fiscais. Se a esquerda é para PPC o diabo, então ele vendeu-lhe a alma e reiterou continuar a vendê-la quando o demo o levar ao cimo da colina e lhe disser “dar-te-ei o mundo que vês, se de joelho me adorares”. Cristo abjurou lucifer, PPC, ressabiado, regressou do exílio, pronto para o servir, pelo poder.

– Ó António Maria, deixa-me perguntar-te duas coisas: tu achas que o PPC é proprietário de algum ferro velho?

– Essa agora! Porque o seria??

– Então, não está ele a fornecer «pessas» falsas [se são falsas não são peças, são pessas] a ver se a «geringonça» se desconjunta? Não é ele o vingador, o condestável que não se conforma com o trono usurpado pelo Costa?

– Olha, minha querida, agora que me perguntas, não sei se lá por Vale de Nogueiras…

– Como não tens resposta, aqui vai outra pergunta: o Costa resolveu num ai a questão da TSU com um PEC. Achas que ele é um Mcgyver?

– Mas que acutilante estás! – comentou António Maria.

– E a Catarina Martins?

– Essa eu sei. Anda a jogar à macaca.

– E a Cristas?

– Anda com a crista levantada e a jogar às escondidas.

– E o Jerónimo de Sousa?

– Mais cousa menos cousa nunca quer passar anónimo ainda que cristalizado.

– Saldo final: isto não é a «guerra dos tronos»?

– Nem mais. Mas nesta guerra o «rei vai nu».

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