Na crista da onda: Páscoa, o eterno retorno

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–  Marcos André, por minha fé, cá estás de novo, meu sacana.

Era a centésima vez que se encontravam, mas era como fosse a primeira. Henrique e Marcos eram amigos de sempre. Criados na mesma rua, fizeram a primária juntos. Ainda frequentaram a Escola Secundária  ao mesmo tempo, mas, concluído o nono ano,  seguiram destinos  diferentes.  Um  foi para Lisboa, outro fez-se ao mundo, emigrando para França.  Cada um em seu sítio,  mas ambos no mesmo ramo: hotelaria. Abraçaram-se. No rosto e no olhar se notava a satisfação deste novo  encontro.

– Sabendo-te em Paris, nem sabes quanto pensei em ti, em Novembro.

– Mas telefonei, não telefonei?

– Foi preciso deixar-te um dúzia de mensagens – censurou  Henrique.

– Já passou.  Hoje a vida tem de ser pensada de modo diferente. Uns morrem com bombas, por bombas, outros do tiro de um assaltante, de uma paulada, de uma facada. na estrada de um enfarte repentino, de doenças malignas  ou male ruim como diziam  as nossas avós. Cada um tem a sua sina. Vida e morte. Em todo e qualquer dia. E a Páscoa é isso: vida e morte.

– É. O importante é chegarmos à aldeia em tempo de morte para  logo celebrarmos a vida. Que é aquilo que aqueles sacanas não têm.

– O quê?

– A Ressurreição. Maomé foi-se e em nome dele só têm como fim a morte… dos outros.

– E deles próprios por causa de  77 virgens  que espera cada um.

– Não sei é como arranjam tantas virgens.

– Deve haver uma agência de exportação.

– Ou de importação – ambos riram, que o tempo de encontro  também é  para alimentar a boa disposição.

– Não falemos de coisas tristes que nos acabrunham.  Todos nós lamentamos Boston, Madrid, Paris, Bruxelas e tantos outros lugares onde se morre quase todos os dias  em nome de um deus que ninguém vê e que já nem todos sentem. Há também coisas em que eu já não acredito muito. Olho para o mundo, para o nosso dia a dia, para a desumanidade que é praticada sem bala, sem bomba, por tanta gente… Hoje o deus maior é o capital, o dinheiro, o petróleo que traz dinheiro. Há tanto cristão  de missa cantada, que não pensa na sorte das pessoas, mas na sorte do dinheiro.  E estão espalhados pelo mundo inteiro e sentados  na sua cadeira de deus do Olimpo. Só há duas coisas que  ainda sustentam de pé  a minha crença: uma raiz que ainda não secou em mim e, agora o Papa Francisco.

– Uma raiz?! O Papa Francisco?!  Quem diria!

– Quem diria é que o «nosso» padre se foi. É histórico. Nós sem um padre residente! Sim  senhor! Não te digo? Já Nogueira não é como dantes. Já não se joga ao panelo  no Cruzeiro da Rabela e olha aqui mesmo à entrada do Azanha, quando isto era lagar de azeite.

– Já não há danças de roda ao domingo. Nem a Páscoa é como antigamente…

– Missa a desoras. E, à tarde, horas e horas à espera que o compasso nos chegasse a casa…

– O que dava tempo para muita conversa no Torrão e o jogo do panelo no  Cruzeiro da Rabela. Namoriscar…

– Não me lembres. Não me lembres. E sabes o que hoje também não há? Aquele cheirinho a bola a sair do forno do Choinas.

– E antes de quinta feira santa o aroma de casa esfregada com sabão amarelo.

– Pois é. Olhamos para trás e já o Torrão não é Torrão, a Rabela não é Rabela, o Cabo d’Além está vazio.

– Não fosse a Glória transformar a azenha em Café …

E foi um desfilar  mais de   mais evocações que  saudades

–  Tempos são tempos. E tudo muda.

– E tu, também mudaste, pelo que te ouvi. Agarrou-se-me uma pulga atrás da orelha quando há pouco  fizeste umas derivações existenciais, de um certo afastamento de cariz religioso. É Paris que te põe assim?

– Paris é Paris, um mundo que nos afoga em tanta coisa que a gente, às vezes, se  afasta dos nossos fundamentos sem darmos por isso. É muito mundo. Mas  há sempre um sino que toca e nos devolve às origens. É  exactamente por isso que aqui estou de retorno. Pela tradição, para viver a Páscoa da aldeia.

 

 

 

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