Na Crista da Onda: O diabo chega em Setembro

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António Maria andava inquieto, para não dizer perturbado, com os últimos desenvolvimentos da política portuguesa, com os tiros nos pés que todos os principais políticos davam a si próprios. Vá percebê-los… Os políticos não são para perceber. São para ouvir, para termos cuidado com o que dizem, porque são perigosos… Assim estava pensando, sentado no sofá, neste primeiro domingo de Outono, quando o sono o dominou e no sono o sonho… Ei-lo.

-Mulher, se alguém vier bater à porta, tu não abras, como costumas fazer ou não digas logo «entre quem é”, avisou António Maria.

– Não?!

-Não – disse ele, peremptório

– Pode ser um vizinho.

– Pode. Mas também pode ser outra pessoa.

– E se for? Que mal há?

– Pode haver – afirmou com semblante misterioso..

– Porquê tanta preocupação?

– É que…

– É que o quê?

– Pode ser o diabo.

– Credo! Cruzes canhoto – Leopoldina benzeu-se.

– Exactamente. O diabo é tendeiro. Se Deus está em toda a parte, o diabo segue-lhe os passos. Deus é o bem, o diabo é o mal. Bem e mal são dois rostos, as duas faces da mesma moeda. Onde está um, está o outro. Quem faz o bem não faz o mal e vice-versa. Não foi Passos Coelho que disse que o diabo chegava em Setembro?

– Tu estás um tanto paranoico. Não admira. Estás velho. E quem é o diabo? – Passos Coelho, ao que parece, sabe. Não lhe vestiu ele a pele e ainda veste como arauto do fim do mundo? Ou será Sócrates que anda por aí a lançar joio até no meio das mulheres? Será o pobre e solitário juiz Carlos Alexandre… Será aquela rapariga…

Naquele preciso momento bateram à porta. Leopoldina levantou-se. Quem seria a tal rapariga?? O diabo também podia vestir «saias», isto é… andam aí duas meninas endiabradas, pelo menos.

– Não abras – ordenou António Maria. Leopoldina não fez caso e abriu.

– Boa tarde, minha senhora, o seu marido está? – era um homem bem vestido, fato preto, com gravata vermelha.

– Está ele e estou eu, ora.

– Mãos ao ar, já – mandou o desconhecido.

– Mas está doido? – perguntou Leopoldina, serenamente. – Aqui ninguém assalta ninguém, ora.

– Eu disse-te… – comentou o marido.

– Isto é mesmo um assalto – reforçou o intrometido.

– Só me faltava esta – disse Leopoldina com uma calma olímpica.

– Deixem-se de conversas. Passem para cá o dinheiro acumulado.

– Qual dinheiro? Isto aqui não é um banco.

– Não é, mas fico a saber que há vários dinheiros acumulados.

– Se acumulei ou não, é comigo. Se acumulei, é porque não gastei E se não gastei o acumulado não está aqui. O Estado pede que se poupe e agora a poupança é crime?

– Fez mal. Se o tivesse gastado não tinha de mo dar agora. Tinha ido passar férias às Caraíbas, a Miami, ao nordeste brasileiro, à Índia… Diminuía a sua conta bancária. É crime não investir, sim.

– Aconselha-me a que gaste o dinheiro no estrangeiro? Acabou de dizer uma idiotice de “lesa-majestade”. Saiba que do que me sobrou já paguei os respectivos impostos.

– Ah! Então sempre acumulou.

– Míseros cêntimos, que «dei» ao banco, esses malditos, que já cobram uma data de taxas.

– E do que tem no banco vai ter de pagar…

– Mas o sr. Está doido ou quê?

– Estou «quê». Quero que mostre todos os títulos de propriedade que tem aí, para fazer uma avaliação do seu património. Se calhar tem aí uns prédios urbanos de arrendamento… com rendimento não declarado, no valor de 500 mil ou mais…

– Tomara eu ter! Alguma vez um funcionário público é milionário? Mas afinal com quem estou verdadeiramente a falar? Mostre-me as credenciais.

– Ainda não percebeu? Houve tempo em que eu batia à porta dos pobres, dos reformados ou pensionistas, do funcionalismo público, para lhes fazer um fato à medida… curta. Agora, chegou a vez dos ricos. Nada de mais. Cada um no seu tempo, no seu lugar. Uma vez Pedro e Paulo, outra vez António, Catarina e Jerónimo. Com uns consegui aumentar o número de pobres. Com outros ando à caça dos ricos, para os fazer um pouco pobres.

– Por mim não se canse. Não faço parte dos 1% dos ricos. Devia era ter juízo. – António Maria estava já um tanto irritado. – E já que anda à caça, podia ir caçar gambozinos, não?

– Não. Prefiro pokemom.

– Vá pró diabo.

– Para quê ? O diabo sou eu.

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