Na Crista da Onda: Natal – consumo, desperdício e engorda

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1. Em tempo de Natal, contar histó­rias. O que não me acontece hoje. Apetece-me descarrilar. Por isso, o título desta crónica convida a não lei­tura da mesma. Não tem luz. Não tem chama. Não aquece. Não tem magia. E porque estou assim frio como o tempo? Olho os dias e não encontro o principal símbolo do Natal. Até a palavra já não diz o que antes dizia. Hoje é uma cari­catura do que foi.

Seja como for chegámos ao tempo cronológico que o calendário religioso e civil determina como sendo o Natal, o natal do Menino que recebeu o nome de Jesus. O tempo é um ditador. Não dos dá hipótese de escolha. O calendá­rio determina. Cumpra-se. E, nós, obe­dientes, submetemo-nos ao seu jugo, desde Novembro, perdendo os olhos gulosos nas montras dos estabeleci­mentos comerciais onde o desejo se pode cumprir.

Dezembro é pior que o seu ante­cedente. É o mais especial do ano – outros escolherão Agosto em meri­dianos e paralelos mais aprazíveis. Dezembro é o mês do consumo, engor­da e desperdício. Uma aura comer­cial. O outro código é o toma-lá-dá-cá. Quem dá quer receber. O Natal é, por isso, um bom tempo comercial e finan­ceiro. Neste dar da «coisa» está o pão de muita gente, a sua sobrevivência ou o seu bem-estar. E será a maneira de Jesus fazer a multiplicação do pão. Será! Já basta deste meu quebranto.

2. A «Bila» – uma certa bila engala­nou-se de luz branca que é a cor da neve e das asas dos anjos. Mas também há azul, porque o céu é azul. À luz, contam-se já alguns anos, juntam-se presépios de freguesias do con­celho. A iniciativa foi boa, em tempo de descristianização. Aos autores des­tes presépios, pedir-se-á originalida­de e criatividade. A estas devia acres­centar-se representatividade. É o que falta a alguns dos «projectos» apre­sentados. Na ânsia de tanta originali­dade distorcem a representativida­de. Deixam de ser o que deviam ser para serem apenas matéria. Separados do contexto universal, em que estão, quem adivinharia a simbologia ou alegoria «daquilo»?

3. Mas Natal é Natal. Este é o tempo. E de tempo se fazem os tempos. E cada tempo tem um rosto. E nenhum igual. Porque em cada tempo há outros homens, outras mulheres, vidas diferentes. Se o Natal mudou, é mais árvore e menos Jesus, privilegiemos a dádiva desinteressa­da, o abraço amigo, o convívio.

Assim, daqui, desta página, dese­jamos a todos os leitores Boas Festas. O António Maria e a Leopoldina dese­jam Bom Natal a todos os que partilha­ram os seus momentos durante o ano. Fechamos com um poema, dedicado a todos os nossos leitores:

A um anjo ouvi dizer

Que o Natal

tão singelo e belo

é elo

sem igual

de humanidade

Se sentires fria

A noite

Olha o céu

E escuta do universo

o grande silêncio.

A luzir

Uma estrela

Sem idade

Que conhecendo o sentir

Do teu coração

Por ti vela

Sem exigir

qualquer condição.

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