Na crista da onda: Ministro no café e doutor até no banho

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A semana estava a ser pródiga em acontecimentos políticos, uns fazendo esquecer  os  outros ou diminuindo-lhes a importância. A vida andava animada com uma série de casos, uns que divertiam, outros que magoavam o sentimento. Para cada um a sua sentença popular. Alberto e Alberta não eram diferentes das restantes pessoas e em casa comentavam um dos casos mediáticos.

– Esta do João Soares não lembra ao diabo – comentou Alberta.

– Não lembra é ao anjo, agora ao diabo sempre lembra qualquer maldade. Recorda uma, a segunda e a terceira. Ao diabo lembra tudo. Quando lhe chegam a mostarda ao nariz,  ele logo espirra. E quem espirra uma também espirra duas e três. E por que não? O que incomoda ao anjo, satisfaz o diabo.  É a lógica das coisas. Se há o verso, há o reverso. É como dizer causa e consequência.

– Mas podia ser diferente.

– Tudo pode ser diferente, porque há sempre uma outra forma, uma alternativa divergente. Todos nós podemos fazer as coisas de modo diverso.

– É o que dá utilizar as redes sociais  de qualquer maneira, pensando que se  pode dizer e mostrar  tudo, que podemos desabafar os ais que nos apoquentam e que estes não ribombarão.

– É.  No imediato não se   pensa nas consequências do que  se escreve. Logo que se edita…

–  Tudo correrá  bem  se  não se  escrever algo  que  comprometa…

–  É só  dizerem-se  banalidades e nada ser importante. “Gosto”, “não gosto”, “estás bela”, “isso é espectacular”, “sortudo”, “que querido”… etc.

– Mais vale.

– Banalidades estamos nós a dizer e mais não estamos numa rede social.

– Pois. É só um fio. Eu e tu em cada ponta. Não há o perigo de alguém nos escutar…

– Isso não sei. Se as paredes têm ouvidos…

– Mas tu achas que o João Soares se devia demitir?

–  Aquilo foi uma maneira de dizer, simbólica. Mas já noutros  momentos lhe faltou  chá, estilo, porte…

– Porte?!  – exclamou Alberta.

– Porque te espantas?  Ele pode ser assim anafadinho,  bochechudo como o pai, vestir calças largas… Bom… O que eu  quero dizer: atitude, garbo, ou seja, estadista. Não temos elites políticas…

– Mas voltando ao João Soares… Tu ouviste o que  disse o António Costa?

– Mesmo no café ninguém se pode esquecer da sua condição?

– Nem no café, nem em outro sítio. Mas agora basta de conversa. Vou é tomar um banho. Não te esqueças que há a conferência na UTAD.

Alberto levantou-se.  Minutos depois, a  mulher que lhe fora preparar a roupa, viu-o entrar no quarto embrulhado na toalha, o que era normal, salvo um pequeno detalhe.

– Alberto, então tu foste tomar banho com os anéis?

Ele sorriu:

–  Alberta,  que tem?

– Não é costume.

– Eu estou na onda do Costa.  Fica pois a saber, minha querida, que  no banho não deixo de ser casado e  nem sequer de ser  doutor…

 

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