Na Crista da Onda: Ministério da Verdade e Departamento do Ódio

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A última semana deixou-me bastante preocupado com as falasduras que aconteceram na Assembleia da República. Dei comigo a pensar que é preciso fazer uma reforma de fundo na estrutura do governo. Se no Parlamento vigoram os Departamentos da Ficção e, sobretudo, do Ódio, então cada governo devia ter obrigatoriamente um Ministério da Verdade, a fim de minimizar as catilinárias soezes, naquele «circo» que têm roçado a grosseria. E para evitar esta seria conveniente que houvesse um outro departamento: o da Polícia do Pensamento. Com este evitavam-se muitas sensaborias, dissabores, já que cada deputado, ultimamente, não faz outra coisa que pensarcrime mal o vizinho discursa.

Olhemos as «coisas» ficionadas ao seu espelho.

– O sr. Ministro mentiu – gritou a senhora deputada.

– Não mentiu nada. Ai a senhora deputada acredita no e-mail que o senhor ex-gestor da Caixa escreveu como justificação para sair do labirinto que criou? A senhora deputada, que está com as velas enfunadas já se esqueceu do seu chefe e ministro «irrevegável», a quem esta semana um outro ex-ministro do governo a que pertenceu acusou de traição à Pátria? A senhora deputada anda com falta de memória – respondeu o PM.

– Não, eu não tenho falta de memória, até porque ando a tomar uns suplementos alimentares…

– Bem me parecia. Devia era tomar mais – sugeriu com um sorriso maléfico o PM.

Desde há muito que os governos, quaisquer que tenham sido, especializaram-se na arte, não nobre, de jogar às escondidas, para nos apresentarem depois «factos alternativos» com duplofalares a fim de ocultar o verdadeiro pensamento. A Polícia do Pensamento devia agir nestas circunstâncias.

A mentira mais que um hábito é um jogo que, se não embebeda, transtorna governantes e parlamentares. Quase que podemos dizer que é inerente à essência do político que se não mente por formação fá-lo por deformação. Ninguém precisa de lhe ensinar porque até um novato rapidamente aprende a ser «remendão», desde que a sua própria necessidade o exija ou por assimilação do exemplo dos seus próximos, treinados tribunos. Assim temos na governação e no parlamento um clube de fugidos à verdade, satisfeitos e a apurar constantemente a arte do ludíbrio. Ouvimo-los e percebemos quanto nos querem enganar. Mentir é intrínseco ao político desde as primeiras civilizações. Reis, imperadores, príncipes, governadores de todas as eras serviram-se da mentira para os seus fins, uns sem prejuízo de ninguém outros maus ou terríveis até ao genocídio. E com angelical safadeza sempre souberam circular nas rotundas das suas decisões. Que ministros da «nossa» Primeira República estarão incólumes deste pecado? Salazar sempre escondeu a realidade quotidiana aos portugueses. E qual o grau de sinceridade dos governantes mais recentes como Sócrates, Coelho, Gaspar, Relvas, Maria Luís, Portas, Cristas? E no entanto, alguns destes e outros mais, incluindo deputados (nem todos, sobretudo os calados que só servem para fazer número) aparecem agora com asas brancas, como se nós não soubéssemos o que fizeram, o que disseram, o que prometeram e não fizeram, mentindo-nos e continuando a contar-nos «factos alternativos». Por necessidade, tudo se justifica. A mentira é sempre por necessidade, dado que a verdade é inconveniente. Objectivos são objectivos. Uns querem conservar o poder, outros querem a ele voltar.

O Parlamento português parece um departamento de ódio. Ouçam-se dos deputados as palavras violentas, a espumarem raiva, assim como para os gestos, para as chispas que saem dos olhos como setas, para braços e dedos estendidos como se fossem espadas prontas a aniquilar ou degolar o adversário. Ódio, ódio é o que transluzem.

O departamento de ficção vai servir para nele serem integradas toda a criatividade, toda a imaginação, toda a ilusão, toda a trama de comédia clássica grega que nem já faz rir o espectador mais habituado a actores tão desajeitados e impreparados para o exercício da função onde os colocaram sem um verdadeiro casting. A comédia a que temos assistido nos últimos espectáculos tem como trecho a buscabusca de e-mails a fim de levar ao cadafalso o ministro das finanças com o objectivo último de causar rombo sério no governo, à espera que este se estatele da «geringonça» para sofregamente lhe ocuparem o lugar. Ou seja: o que a actual direita anda à procura não é dar respostas ao país sobre uma coisa que já está morta, antes quer mostrar uma postura de transparência que nem sempre teve quando foi governo. Ora, em vez de andarem à cata de piolhos, na obsessão do pensarcrime nos adversários, melhor faziam se dedicassem o seu tempo a procurar caminhos para diminuir o desemprego, a resolver os problemas da saúde, a degradação física das escolas, os problemas da agricultura, das pescas, da segurança social, da pobreza, da desigualdade, etc. Mas não. Preferem jogar à macaca. Ou seja: o que nos últimos dias se tem passado no parlamento não foi política, foi trica. Ou melhor: pantomima como se estivessem no terreiro de uma aldeia.

Trump está na moda. Já agora, no departamento do ódio podiam adoptar e adaptar-lhe aquela saída tosca de uma entrevista já conhecida: “há mentirosos no PS e no governo? Também nós [o leitor escolha o nós] temos mentirosos. Acham que o nosso partido [a mesma sugestão] é inocente? Basta olhar pelo retrovisor.

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