Na crista da onda: Marcelo no Olimpo

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– Então, António Maria, que me dizes de Marcelo, tu que ficaste em oração durante todo o dia da sua  assunção  à categoria de «deus» do olimpo?

– Sempre uma exagerada, sempre uma exagerada! Qual oração, qual assunção, qual olimpo,  mulher… Fiquei-me aqui a ver porque não tinha que fazer e estas cerimónias, de vez em quando, são muito interessantes. O protocolo, as pessoas… O que as pessoas dizem. A alma do povo que ama ou que odeia, aquele que apoia, aquele que critica, aquele que vai à procura de esperança.  Depois tive  a minha curiosidade. Marcelo até veio a pé de casa…

– Que não era longe. Deu corda aos sapatos, como o Mota Soares dera ao acelerador manual da lambreta.

– E aquele discurso…

– À professor, vais-me dizer.

– Nem duvides. Citar Miguel Torga e não Pessoa ou Camões foi de mestre. Foi de mestre! Marcelo o «anunciado» e agora «ungido» leu o primeiro capítulo do seu «evangelho» Servir o País, com «afectos».

– Eh! Lá! Menos, muito menos. Nem ungido, nem evangelho. Quiçá manifesto. Manifesto, António Maria. Manifesto.

– ‘Tá bem! Manifesto. Mas gostei de ouvir citar Torga. O Povo não precisa de figuras esfíngicas, secas. Precisa de palavras quentes. O Povo não precisa de raspanetes. Precisa de conforto. “O Presidente da República é o Presidente de todos.Sem promessas fáceis, ou programas que se sabe não pode cumprir, mas com determinação constante. Assumindo, em plenitude, os seus poderes e deveres. Sem querer ser mais do que a Constituição permite. Sem aceitar ser menos do que a Constituição impõe. Um servidor da causa pública. Que o mesmo é dizer, um servidor desta Pátria de quase nove séculos. Um Presidente que não é nem a favor nem contra ninguém.”

– Decoraste o discurso?  Bravo, marido. – Leopoldina bateu palmas.

– Estive atento e já o li  na net e está aqui no jornal. Só estive a ler, se por acaso não reparaste. – – Eis o meu marido no seu melhor momento político. Estou a ver que estás cheio de esperança.

– Ó filha, já não me iludo assim facilmente.  Mas …

– Ora,  diga, diga,  excelência – e Leopoldina, que ainda se mantinha de pé, fez uma vénia.

– Goza, goza.  Senta-te aqui – Leopoldina não se fez rogada. – Marcelo, que todos conheciam, apresentou-se ao país. No momento da sua entronização, e do agora  seu  palanque,  disse às multidões: eis o vosso filho, que vai, agora, fazer de vosso pai.  – Leopoldina  não pode deixar de rir . – E o povo gritou – continuou António Maria: “Marcelo, Marcelo, Marcelo”. E Marcelo sorriu, com satisfação. Estava a acontecer o que sempre quisera. Desceu ao povo e o abraçou, em Belém, na Praça do Comércio, nos Aliados, no Cerco. E o Povo acreditou que dele viria a esperança: “Marcelo, arranja-me uma casa. Marcelo, aumenta o vencimento mínimo.” Quem  pedia  sabia que Marcelo não arranjava emprego, nem lhe competia aumentar vencimentos, nem podia transformar  a água em vinho, como Cristo em Canaã. Mas era o  acalentar de melhor amanhã, porque ele agora era poder, e isso era, isso é importante.

– Puxa, marido! Estás todo marcelista. Que empolgação!

– Já te disse que não vou em entusiasmos, mas é bom  acreditar que depois de anos de nevoeiro haverá nesgas de azul no céu, não te parece?

– Nem todos pensam como tu, senhor poeta.

– Nesses todos, está incluída a minha Leopoldina?

– Não, não estou. Estou a lembrar-me da esquerda sentada, hirta …

– É a sua matriz. Nasceram  como nasceram… Cada um é como é. E a esquerda do PS ficou embasbacada, paralisada e engasgada quando Marcelo lhes deu a comer o seu próprio  pão e lhes deu a beber do seu próprio vinho.

– Seja como for, não o vejo como predestinado ou como se fosse o eleito de Deus, mesmo auto batizado no Tejo, lembras-te. Fico à espera, fico à espera, sabendo que não vai fazer milagres.

– Ninguém faz milagres. Mas há muita gente que é nele que deposita todas as esperanças deste tempo que, ainda que não queiram, pode ser um tempo novo.

– Pode ser. Oxalá que seja. Por essa  nesga de céu azul de que falaste haverá sempre alguns raios de sol,  que ao mesmo tempo nos deixarão ver uns tantos abutres…

– Também é verdade. Mas gozemos agora este momento de esperança.

– Ámen.

 

 

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