Na Crista da Onda: Leopoldina, a licenciada

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Diz-me, Leopoldina, quantas licenciaturas tens? – perguntou de rompante António Maria quando ela, vinda do quintal, lhe entrou na sala.

– Ainda aquela história do secretário de estado e do chefe de gabinete? E queres mesmo que te responda, para desfazeres esse sorriso maroto? Tenho as que declarei em devido tempo. Fica pois a saber

– E quais foram? – não deixou de sorrir.

– As que tu sabes.

– E que é que eu sei?

– Tudo.

– Então, não tens nenhuma – afirmou perentoriamente.

– Isso é o que tu dizes. Parece-me impossível que casada comigo há um ror de anos…

– Quantos são? Quantos são? – riu-se.

– Também não sabes?

– Tenho de fazer as contas.

– Falta-te memória? Fazer contas sei eu que só fazes quando te interessa. Mas a questão não é essa, mas a das licenciaturas que tenho ou não. Nem penses que me embaraças. O saber não ocupa lugar e não precisa de um rótulo escolar. Sábios houve muitos durante séculos sem precisarem de serem denominados licenciados, mestres ou doutores. Outrora aprendia-se a ler na primeira classe. E hoje? Outrora a segunda classe havia de corresponder ao 9º ano atual. A terceira classe ao 12º ano e a 4ª às actuais licenciaturas de Bolonha.

– Tanto disparate!

– Eu não digo que o que disse servisse para todas disciplinas, mas para algumas… Quantos universitários sabem a tabuada e a história de Portugal como naquele tempo?

– Bom, bom! Isso são ideias tuas. Mas fala-me das tuas licenciaturas, que eu nunca te vi qualquer diploma.

– E não. Nem dele preciso.

– Eu sabia – regozijou-se António Maria.

– Não tenho dessas licenciaturas, escritas e declaradas em letra de forma por uma qualquer universidade. Eu para ser licenciada não preciso de nenhum diploma. As minhas licenciaturas são feitas de prática, de experiência que se transformam em teoria, conhecimento. Não as preciso de declarar.

– Muito canta o melro no cerdeiral! – António Maria o que queria era provocá-la.

– Melra, no caso, meu querido, melra. Nada de confusões, senhor rouxinol.

– Obrigado, pelo trato.

– Não tem de quê, dr. António Maria. Por mim pode continuar no seu posto. Já agora o que é uma licenciatura? Não quero que me digas que licenciatura é um título académico, etc. etc.

– Então?…

– Quando casámos, nesta na nossa linda igreja [Nogueira] eu declarei: António Maria eu te recebo, como meu marido e te prometo ser fiel, amar e respeitar, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, por todos os dias da nossa vida, até que a morte nos separe”. Esta foi a minha primeira licenciatura.

– ???? – António Maria ficou obtuso.

– Escusas de estar para aí com esse olho de carneiro malo morto. Licenciatura é uma palavra composta de duas: licença e atura. Pelo padre Palma, recebi dele, em nome de Deus, a licença para te aturar até hoje, pelo menos. Percebeste a minha licenciatura? E tem a tua assinatura. Juro que não prestei falsas declarações.

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