Na Crista da Onda: Fogo que arde

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-Este pais está uma desgraça.

– Um drama.

– Uma fogueira. Todos os anos é isto. Ninguém  parece fazer nada.

–  É como aquele dito jocoso: deixa arder que meu pai é bombeiro.

– Mas não há bombeiros suficientes.

Conversa de ocasião e obrigatória, perante as imagens infernais que  a TV  mostrava. O desespero e a desgraça de famílias , a destruição de  património, o horror das chamas,

–  Até parece que  eu estou a arder.

– O que não era mau, António Maria.

– ???

– É o que eu te digo.

-???

–  É que se tu estivesses a arder, podias  incendiar-me…

– ???

– Então ardíamos  o dois. ..  Já tenho saudades daqueles tempos em que ficava em cinzas. Depois renascia, como o Fénix…  para voltar a arder. Porque é que tu não ardes?…

António Maria que  inicialmente  não estava a perceber estas  últimas  palavras  incendiárias da mulher, compreendeu , a meio,  todos os subentendidos. E respondeu-lhe também por meio enigmas.

–  A composição  química  do enxofre  e dos oxidantes está um tanto  estragada. Pela idade…  pela idade… E depois o fósforo da caixa  onde o palito   se pode  esfregar   está gasto… e juntos só  à custa de muita  fricção   podem  produzir  chama.

–   Confessas  então que estás seco? Mas quanto a mim…

– Eu sei. Estás ainda muito fresca. Pronta para arder.   E se querias arder,  vais arder.  E sabes com o quê?  Com o IMI. Olarila! Quiseste uma casa  aberta ao sol?

–  Mas quê?! Só tem uma fachada  com sol e só do nascer até ao meio dia. Depois é vê-lo ir e ver a sombra da casa da vizinha a ensombrar  a  frente que dá para a rua.

– Pois mas tens aquela vista toda da encosta  que dá para Abaças , para a Prelada e muito mais além. Vinhas e pinhais também contam…

– Mas isso já não estava contemplado?

– Estava. Só que foi agravado, para 20%.

–  Mas o governo  não davam incentivos a quem  construísse casas expostas ao sol, a fim de reduzir a fatura   da luz?

– Sim?

– Então, o que é não é?

– Absurdos.

– Canalhices.

–  Se o sol  nas habitações paga imposto, virá o dia que vamos pagar IRS pelo sol que apanhamos na rua, no campo, na  praia. Quanto mais moreno…

– Sorte para os negros que ficam isentos…

António Maria riu-se. Leopoldina colaborou com ele.

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