Na crista da onda: Benditos os ricos

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Benditos os ricos, porque mostram aos pobres como poderiam viver se também fossem ricos. Benditos os ricos porque são eles que nos fazem ver quão pobres os pobres são. Benditos os ricos porque alimentam os muitos sonhos – o de se ser também como eles. Como escreve Jesús Mauleón: “Bem-aventurados os ricos, porque têm “massa”, manjares, luxo e abundância para pagar todas as suas necessidades e caprichos. Bem-aventurados os ricos, porque muita gente crê que são mais respeitáveis do que os pobres. Bem-aventurados os ricos, porque podem permitir-se ter à sua volta gente que os serve e lhes recorda que o são. Bem-aventurados os ricos, porque, embora neste mundo nem tudo se possa comprar com dinheiro, pode-se comprar tantas coisas e tantas pessoas… Bem-aventurados os ricos, porque, quanto mais dinheiro acumulam, embora não seja muito claro como, mais espertos parecem.” Benditos os ricos porque lavam dinheiro com perfume caro e o  arrumam os seus milhões  em off-shores, colocando-os na sombra para  que não percam cor. Benditos os ricos que  têm piedade de nós e nos permitem trabalhar nas suas empresas, para nós tomarmos consciência de  quanto deles precisamos, ou louvemos, os adoremos e os coloquemos num altar. Benditos os ricos e aqueles que tantíssimamente os defendem e que por isso não nos largam a porta. Estes são os seus guardiães. São eles que colocam a corda para o nosso  enfocamento, suspensa num ramo de árvore. E como corvos voando a nossa volta, vêm pousar  no topo da copa. Grasnam, grasnam…

Lagarde, sempre em guarda quanto aos outros diz respeito, pia que  na nova meta do PIB português  é necessário “um plano de contingência”, o tal Plano B e que é preciso pensar as reversões…  e que a austeridade no nosso prato tem de continuar, como se fosse um receita groumet para pobres – uma cabeça de sardinha e  uma azeitona no meio do prato -. A emissora de TSF preferida é a  PPC/FM.

A Comissão Europeia, que nem democrática é, porque não submetida a sufrágio, volta ao ataque e diz que o salário mínimo em Portugal é elevado e causa desemprego. Ou seja: este vai aumentar porque pagar mais 25 euros por mês a um «desgraçado» será a ruina das empresas e não atinge o objectivo de aumentar o consumo dos bens que o próprio produz. Para esta CE é necessário poupar, poupar… E no poupar está o despedir e no poupar estão os baixos salários. Poupar no dinheiro, agravar a vida das pessoas: “A reforma abrangente das pensões, como anunciada no programa de estabilidade de 2015, saiu  da agenda do governo. A medida iria poupar 600 milhões de euros, por ano, serviria para dar mais força ao sistema  no curto prazo”. Indignemo-nos. Estes senhores sentam-se nas suas cadeiras de sonho onde cada minuto rende mais que um salário mínimo nacional, mesmo quando bocejam, a fingir de cansados.  E ficam zangados quando um pobre recebe 16,60 euros por dia, que será, para eles, o tempo de uma «mijinha».  Estes senhores da CE não olham sequer para dentro e para o lado, direito ou esquerdo, por onde andam os funcionários (empregados) que os servem, que lhes levam um cafezito, lhes preparam os papéis, lhes limpam as secretárias… Este pessoal ganha, no mínimo cerca de 2 mil euros mensais, pois o salário mínimo é de 1907 euros. Que licenciado, em Portugal  e no «público»,  ganha estes «cobres»? Em termos financeiros, um «dr.» português  face a um «operário» na CE é um desclassificado. Será que a C.E. se vai «enfurecer» pelos 7.000 euros/dia pagos pela EDP a Mexia? Só ele passa a ganhar tanto como 4905 operários com salário mínimo. A CE só se preocupa com as miudezas, as migalhas dos lázaros que caem ao chão, nunca com as abundantes iguarias que estão ou chegam à mesa dos administradores das empresas das agências de rating, dos chupadores de medula em Wall Street.

Alguém justifica o caso de Mexia. A EDP é agora uma empresa privada. Logo o «patrão» paga o que quer ao administrador (CEO). Pois sim… Mas é o povo que paga a electricidade… Eu, tu, ele, nós vós eles. Todos.  E outro: “é necessário alinhar o salário com o mercado”. Ou seja: se dão mais 25 euros (tostões) aos «miseráveis», é necessário dar mais 600 mil (milhões) aos ricos. Benditos os pobres. É com eles que outros se fazem ricos.

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