Na crista da onda: Bendito Bloco de Esquerda

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Todos nos devemos sentir felizes porque existe o Bloco de Esquerda (BE) – não sei se deva dizer «nosso pai» se «nossa mãe» – que cuida de nós todos os dias, que nos alimenta o ego, que sai em defesa de tudo o que nos pode prejudicar e que esconjura todos os demónios que rodopiam à nossa volta, não nos deixando cair em tentação.
Todos os dias devemos acordar com um sorriso porque sabemos que se chover o BE nos oferecerá um guarda-chuva, se fizer calor – que ainda não veio este ano – nos trará um «sombrero», um boné, às mulheres, se preferirem, um lenço não com um galo de Barcelos estampado, uma tricana de Coimbra, uma varina de Aveiro ou das Caxinas, mas com a imagem de um(a) bi ou transexual, que é o que está na moda.
E entramos agora na questão linguística que é coisa de magna importância, neste momento, para o BE. Se o leitor ou leitora não sabe, passa a saber que há um desgosto muito grande na direcção do BE por causa do chamado cartão do cidadão. Não quere esta denominação. Cartão é masculino. Cidadão é masculino. Falta lá o feminino. Logo querem que o dito se passe a chamar «cartão de cidadania». Ou seja: masculino+feminino. Como a natureza manda. Não digo Deus, porque o BE não gosta. Ora esta proposta intrigou-me. Então não está nos genes do BE que o mundo pode continuar feliz se a união for também Homem+Homem, Mulher+Mulher? Para que embirra, então, com o «casamento» do ‘cartão’ com o ‘cidadão’? E se fosse «cartolina de cidadão»? Ah! Não dá. Cidadão nunca é cidadã. Logo devia ser cartolina da cidadã. Não. Cartolina da cidadania. Assim é melhor?
Esta questão de género ainda por aí muito confusa. Provavelmente já todos repararam no uso da palavra «obrigado». Ouve-se uma menina/senhora num qualquer comércio dizer a um cavalheiro: «obrigado». E também um funcionário dizer a uma menina/senhora: “obrigada”. Bolas! Isto anda tudo invertido ou será revertido? Obrigada ela ou obrigado ele (ou eu), sim, a comprar por necessidade básica, nunca como agradecimento, minha gente, meu povo. Os ingleses, os franceses, os espanhóis, os italianos, os alemães dizem invariável e respectivamente «thank you», “merci”, «gracias», «grazie», «danke». Uma só palavra para os dois sexos (géneros para o BE). Em Portugal, há «obrigado» e «obrigada». A palavra não pertence ao género neutro, que não há.
Estará o BE em vias de propor alterações à gramática portuguesa como: o crianço, o testemunha, o pescada, o sardinha, a tubarão, o enguia, o águia, a dragão, a falcão? Será que para uma mulher se deve dizer tem pintou as lábios (ou lábias), «a boca» para um homem será «o boco», as orelhas os orelhas (ou orelhos) etc.etc.? Quando e se o BE conseguir trepar as escarpas rogosas do Olimpo e se sentar na cadeira de Cronos será que vai determinar o sexo da criança (ou crianço)? Vai ordenar que sejamos todos iguais, com a mesma cara, cor de cabelo? Para nosso bem, o BE está muito à frente em pensamento e prática. E, por isso, nós devemos agradecer-lhe este avanço? No ano 3025, depois de os terráqueos casarem com uma raça interplanetária tudo será diferente fruto desta evolução de género. A nova raça será assexuada, engravida pela intensidade do olhar… e o parto será natural pelo umbigo. Já não se lutará pela mudança de sexo, não será precisa autorização médica. Então, o BE proporá que na terra, agora todos de género neutro, se substitua o «cartão de cidadania» por «bilhete de identidade».

“O Diário publicou um decreto, tornando obrigatória a aquisição do bilhete, documento bastante para prova de identidade do seu possuidor perante quaisquer auctoridades, cartórios notariaes ou repartições publicas.
Estes bilhetes, que custam 5$00, são obrigatórios para o exercício de qualquer emprego público, exceptuando os funcionários que exerçam funções gratuitas. A partir de 1 de Janeiro de 1927 nenhum funccionario publico poderá ser abonado da respectiva folha de vencimentos, sem que d’essa folha conste que o interessado se acha na sua posse do seu bilhete de identidade, cuja concessão deve ser pedida, acompanhada da certidão de edade passada em papel comum e isenta de sello, não podendo custar mais do que um terço fixado na tabela em vigor. Estes bilhetes que concedem várias garantias aos seus possuidores, também se tornam obrigatórios aos mancebos em edade militar”. Fonte: O Villarealense, 7 de Outubro de 1926.

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