Na crista da onda: as brumas do PSD

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Eles iam chegando um a um, aos pares ou em pequenos grupos. Na memória a última estação onde parou  o último  comboio em que viajavam. Nesse dia a festa era grande, a euforia maior. Cantavam e dançavam uma modinha popular muito alegre que todos conheciam e que estava bem para o momento:

Apita comboio que coisa tão linda.

Apita comboio perto de Coimbra.

Apita comboio que coisa tão linda.

Apita comboio perto de Coimbra.

 

Todos se  lembravam,  ainda que  de momento não falassem no assunto, porque oportunidade para  tal não faltaria, do que os não deixou prosseguir a viagem  prevista, primeiro, programada, depois.  Tudo tinha corrido melhor do que o imaginado, por isso a folia. Mas, de repente, a máquina empencou e descarrilou, levando consigo as carruagens. Alguém mudara as agulhas e a  via, em que circulava o trem, de repente,  de estreita passou a larga.  Ninguém, no comboio,  avisara.  E não era credível que tal sucedesse, mesmo que alguém colocasse essa hipótese.  O maquinista tinha currículo de via estreita, era até sábio. Quando o acidente aconteceu, ficaram todos traumatizados. Longamente… Se ninguém fisicamente ficou machucado, dorida ficou a alma. Era tempo de libertar dores,  de fazer frente à depressão. Tinham vontade de cantar outra vez, ainda que os tenores e barítonos tivessem voz mais fraca. Mas haviam de arranjar mezinha:

Apita comboio, lá vai a apitar.

Apita comboio, à beira do mar.

À beira do mar, mesmo à beirinha.

Apita comboio, no centro da linha.

 

Mas nem todos vieram no comboio  à beirinha do mar.  O tempo não era (não é) de praia. Nem todos queriam  continuar em comboio que preferia seguir em via estreita. E ali também havia quem preferisse mudar de carruagens, mudar de  «rodados» e carris, ainda que por agora o maquinista pudesse ser o mesmo porque ali ninguém estava preparado  ou queria assumir a condução dos instrumentos que faziam andar a máquina  que arrastava as carruagens. Havia quem, secretamente, preferisse esperar por deslize do condutor, que o comboio saísse da linha.  Raro foi aquele que disse que a via estreita não tinha futuro. Mas ao mesmo também duvidava da via larga.  Havia propostas  de «passeatas» antigas e de velhas cantigas. Outros davam vivas a sonhar com as legislativas, mas sem mudança, continuando a mesma dança. E  o encontro, a discussão sobre o andamento do velho  comboio foi morna. Não se dissipou a bruma. Mas todos do cais saíram cantando:

 

Apita comboio logo de manhã, 

Apita o comboio  que Deus bem o guarde

De Espinho  alegre sai  com todo o clã

Esperando que o poder não lhe tarde.

 

 

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