Na Crista da Onda: A valsa dos cus

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– António Maria, já escolheste a tua fantasia? – provocou Leopoldina.

– Agora que o carnaval acabou?

– Qual acabou!

– Então, hoje é quarta-feira de cinzas…

– Isso é apenas calendário. O carnaval não são três mas quatro dias.

– Lá vens tu com as tuas coisas mirabolantes.

– Pois. Não és tu que dizes, tantas vezes, durante o ano : isto é uma palhaçada, isto parece um carnaval? Pois, aí tens. O carnaval são 365 dias. Os três dias são de brincadeira, de divertimento, de representação, de comicidade. Três dias a desnudarem factos e actos políticos e sociais. Três dias em que nos rimos do outro, mas em que cada um, como parte integrante da sociedade, se pode olhar ao espelho e encontrar o verso e o reverso, a cara e a coroa, o seu outro lado… Três dias a mostrar o ser e o não ser. Pela tradição. Três dias que acabam depressa. Dorme-se, acorda-se, dorme-se, volta-se a acordar e volta-se a dormir. Quando se acorda esse tempo que o calendário escolhe acabou. Foi lindo, mas acabou. Ficou a ressaca. E, depois, volta-se ao real, a um real que continua a fantasia, a farsa, o auto cómico. É quando tu ris e dizes: isto parece um carnaval. Não parece, é. Com outra indumentária, mas é. Entramos assim no quarto dia que dura… dura… Tem pilhas «duracel».

– Tens razão. Convenceste-me. Subjugo-me à tua análise – conformou-se António Maria.

– Basta-nos ouvir os deputados naquelas comissões…

– Comichões – quis rectificar António Maria.

– Comissões, redigo, como fossem departamentos das comunicações e de desporto – continuou Leopoldina. – No primeiro escrevem farsas quase vicentinas, espécie de autos da barca do inferno ou autos da alma. Venha o diabo e revele os maus.

– Ou venha o anjo e escolha os bons.

– Há? – perguntou Leopoldina com um sorriso.

– Ou os bons agora maus?

– Quem? Bavas e granadeiros? Os que estão sempre com a mão no burro e no cigano? – riu-se Leopoldina. – Ou a fuga acelerada dos dez mil milhões?

– Os SMS, enviados em banda larga, são fantasias? – António Maria voltou atrás.

– E muitas irritações – complementou ela.

– Conhecê-los, ia ser giro. O compromisso «centenino» e a súplica dominguista em que acordo ortográfico teriam sido escrito? No novo ou no antigo? SMS deve ser boa literatura, certamente muito instrutivo para o futuro da língua. Ou será que as mensagens estão em código? Ia ser giro ver a dedicação do PSD/CDS a decifra as charadas.

– Será que vamos mesmo ver o jogo Domingues contra Centeno?

– Já imagino o torneio. Ping-pong. Bola cá, bola lá. Bola cá – verdade; bola lá – mentira. Bola cá – mentira; bola lá – verdade. Verdade e mentira, mentira e verdade, zás-trás-pás. Quem mente? Quem fala verdade? Como se apura a verdade?

– Eu sei – interrompeu Leopoldina. – É com molho suculento. Basta Cecília Meireles levar a panela. É com azeite virgem, vinho bordeaux, alho, gengibre, vinagre, ervas aromáticas. A bola vai e vem, vem e vai, nunca ficando no campo do mesmo jogador com o mesmo rótulo. Alguém perde.

– E alguém ganha.

– Nem sempre, António Maria, nem sempre. Sabes o que penso? Nos próximos tempos vamos ouvir chocalhar tanto como no carnaval de Podence. Domingues, “pai fartura” que queria ser, “enterra o pai velho”, Centeno…

– Ou então ainda vão ambos dançar a “valsa dos cus”.

– E a orquestra política de S. Bento vai tocar tão esfarrapada como a de Nogueira no carnaval de Vila Real no domingo passado.

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