Na Crista da Onda: A geringonça de Manuel Ingró

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José, Amélia e Rui , filho, chegaram a Nogueira nos anos sessenta, creio. Lembro-me que alugaram casa existente no Vale do Paço, no cruzamento para Tanha, propriedade de membro da família dos Ramados, e depois no Bairro de Santa Bárbara, ou ao contrário. Já lá vão una anitos, pelo que o relato dos factos pode não ser o mais preciso. José, a quem chamavam Ingró, fosse alcunha ou mesmo apelido – era latoeiro. Sabemos hoje que este apelido ou epíteto existe comercialmente em Santa Marta de Penaguião. Latoaria era ramo que faltava em Nogueira, onde havia professores, piloto de aviões – não havia aeródromo, mas isso que importava?- padre natural da terra, alfaiates, costureiras, sapateiros, carpinteiros, merceeiros, barbeiros, músicos, actores de teatro, um ferreiro, um taxista, «enfermeiro de trazer por casa», e naturalmente muitos trabalhadores peritos em viticultura e em outras actividades agrícolas. Vasilhas – canecos – para a água e para o sulfato, pulverizadores, enxofradeiras «pinhão», fundos de lata para os cestos vindimos, regadores e toda uma série de outros utensílios necessários ao uso quotidiano – púcaros, almotolias, candeias, candeeiros, etc. – davam-lhe bom trabalho e proveito. Mas um dia esta primeira família Ingró partiu tão de repente como havia chegado. Mas outra chegaria, um nadinha mais alargada, quatro no mínimo, com o mesmo «título», como se estivéssemos perante uma dinastia. A Ingró I, sucedeu Ingró II. A José seguiu-se Manuel, vindo de Sever, Santa Marta de Penaguião, disse-se. O Ingró II instalou-se num baixo, na Rua da Boucinha, às portas da mansão abandonada do dr. Albertino Costa, para depois se mudar para o Cabo d’Além. Ou seria o contrário? Tanto faz, para o caso. Sina dos Ingró. Manuel era mais divertido, mais bem disposto, menos sofisticado, mais terra a terra, amigo de um copo, mas muito mais inventivo. Começou por andar de motorizada, mas não descansou enquanto não comprou um «quatro rodas», chaço velho, que ele queria transformas num fórmula «turismo», sem pretender andar em corridas no circuito de Vila Real . Não me lembro qual a marca do calhambeque, mas quase tenho a certeza que era de cor verde. Mas para o caso tanto faz não saber a marca ou ter a certeza da cor. O importante é que ele magicou que aquela carripana havia de andar sem consumir gasolina.

– Sem gasolina, só de empurrão. Ó Ti Manel, essa agora! – E sorria, quando punhamos em dúvida as suas certezas.

– Vão ver. Vão ver. Qualquer dia. Qualquer dia – prometia.

Quase todos os dias saía de casa para ir a Vila Real. Dava-se conta quando isso acontecia. Aquela panela do escape… fazia cá um pró-ró-pó-pó!… E eis que um dia ele, no Largo do Torrão, apresentou à rapaziada a sua máquina, a que não gastava gasolina.

– A sério? – perguntou-se-lhe.

– Querem ver? – Abriu a mala do carro – Veem? Este carro passou a andar a gazcidla. Aqui está a botija. Aqui está o tubo que eu liguei ao motor, depois de fazer umas adaptações. Querem ver agora a ligação no motor? – e mostrou tudo com entusiasmo.

– Isso ainda vai estourar. Ainda o vai matar. Pior: ainda mata mais alguém.

– Se tivesse de rebentar, já tinha estoirado. Ando assim com ele há uma semana – disse convicto

– E a GNR?

– A GNR sabe lá. Ela só pede os documentos.

– Mas olhe que se lhe mandam abrir a mala… – Manuel Ingró apenas sorriu. Ele estava era feliz e o resto era conversa.

A verdade é que o Manuel Ingró esteve à frente do tempo. Como ele fez aquilo eu não sei, mas que aquela geringonça andava, lá isso andava. Um engenhocas. Tivesse ele tido oportunidade de estudar e seria certamente um engenheiro bem sucedido.

Um dia também ele saiu de Nogueira. Lá já não precisavam dele. Nogueira tinha, anos 70, ligação, por estrada, a Vila Real e à Régua. Havia transportes que faziam a ligação para uma e outra cidade. Já ninguém precisava de andar a pé 12 quilómetros ou descer a Carrazedo ou à Povoação para apanhar o comboio.

Mas há cerca de 10 anos, penso, voltei a vê-lo, num domingo, e a descer e a subir a Carvalho Araújo, a passear-se, de motorizada, outra vez, levando à sua frente, instalado, um altifalante que «botava» música para o povo ouvir e para ele encher a alma de alegria, com a maravilha da adaptação que fizera. Sentia-se um senhor, quiçá, um rei, com pouca coisa, ou seja com a sua nova e cantante geringonça.

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