Na crista da onda: A Escola Pública é p’ra “burros”

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É ofensivo dizer sub-reptícia  e eufemisticamente  que a  Escola Pública é para «burros» , mentecaptos, incompetentes ou inadaptados.  Mas foi um pouco esta a leitura que fiz quando ouvi opinar, durante a última semana, tanto político, tanto representante  fosse de colégios, fosse das associações do ensino particular, cooperativo e quejandos, assim como de  pais e miudagem agora lançados num coro de canários, quando deviam era estar na sala de aula. Todos defendem a sua mesa posta e abundante, à custa do orçamento. Ressuscitasse D. Dinis, com o seu afã de justiça e logo veríamos que destino ele daria às «comedorias».  Esta questão  será a justiça que a decidirá, pelos vistos. Esperemos para ver o que vai dar.

Em substância, na catacumba das palavras, quis fazer-se passar a ideia de que a escola pública – do 1º ciclo ao secundário –  não presta, quando usam e abusam da palavra «qualidade», a que acrescentam a expressão «projecto educativo».

Sigamos esta ordem e falemos, então, da primeira. A qualidade de um produto depende de variadíssimos factores, entre eles a selecção, as técnicas aplicadas na produção, nos meios utilizados, nos técnicos ou agentes de laboração, etc. Permitam-me que, nesta questão, use o desporto. Porque será que Real Madrid, Barcelona, Bayern de Munique, Manchester United têm mais hipóteses de serem campeões europeus? Ou porque será que o Benfica, o Porto ou o Sporting ganham quase todos os títulos em Portugal? É com os jogadores do Alguidares de Baixo? As escolas públicas têm muita qualidade em massa crítica  no quadro do seu pessoal docente. Há, certamente, nas escolas públicas, professores mais «categorizados» que nas escolas privadas, até porque naquelas há  vários mestres e doutorados. Os resultados dos rankings conseguidos por certos colégios são muitas vezes falseados à partida. Acontece em muitos colégios que a «semente daninha», aquela que pode estragar o lugar no top 5, 10 ou 15, é deitada fora.  Depois, como obter excelentes resultados com turmas de 30 alunos das mais variadas proveniências? Não é vantagem o Chelsea, Arsenal, Manchester United ou M. City  ser campeão em Inglaterra. Vantagem é haver  um Leicester.  Ora as escolas públicas de Vila Real, por exemplo, têm todos os anos colocado muitos alunos no cursos  superiores mais «apetecíveis».  Mais que alguns colégios de elite, se se atender o universo dos seus alunos. Qualidade não falta pois na escola pública. Não esqueçamos que a seara é grande.

Falemos agora de projecto educativo que alguns bem falantes deputados e representantes das associações de pais  dos colégios  gostaram muito de falar. Pergunto: quantos pais sabem o que significa «projecto educativo»?  Uma boa percentagem o que querem é que os seus filhos  tenham classificações de 19 ou 20 valores, mesmo que as não mereçam. E alguns colégios inflacionam-nas.  Fazem batota, para que os pais optem  por eles. Projecto educativo? Os leitores já repararam quantas notícias o NVR já publicou este ano lectivo  sobre as actividades das escolas da cidade?  Tantas!  Quase todas as semanas. O que mostra à evidência que  estas escolas estão vivas, são dinâmicas, são criativas,  têm metas ambiciosas e um ensino de elevada qualidade. E isto só pode ser realizado com um trabalho meritório e altamente profissional de toda a comunidade educativa. Logo, as escolas públicas não são para «burros», porque nelas não os há. Há é diversíssimas capacidades.

Os colégios que lutem pelo seu dinheirinho, mas não insultem a escola pública.

Hoje, aos responsáveis destes estabelecimentos de ensino, que cumprem também um papel importantíssimo na sociedade educativa, treme-lhes o «coiso» porque vão dispensar professores a quem, pelos vistos, vão ter de indemnizar. Mas preocuparam-se eles,  quando,  ao receberem  turmas do público  muitos professores deste sector,  ficaram  cientes que milhares de docentes ficaram a lamentar a sua vida no desemprego e  sem qualquer recompensa.

Tenho aqui um diabinho a soprar-me: afinal D. Dinis anda por aí.

 

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