Na Crista da nda: Mário Soares, simplesmente

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Mário Soares. Inevitavelmente. Hoje. Aqui, neste espaço. Inevitavelmente. Hoje. Com a História que os nossos olhos viram e os nossos ouvidos escutaram. Como diz o poeta: “vimos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar.” E não ignoramos o «bem» ou «o menos bem» de um homem que marcou, moldou e fez a história recente de Portugal.
Parece que já tudo foi dito. Tanto, que não cabe em pedestal tumular ou placa de praça, largo ou avenida: pai da democracia, democrata-lutador-pela-democracia, herói da liberdade, figura tutelar do regime, estadista, estratega, ideólogo mas pragmático, europeísta, combatente, corajoso, ganhador e perdedor, resistente, conspirador, homem de consensos, de rupturas, de vitórias e de derrotas, de virtudes e com defeitos, frontal, magnânimo, príncipe imperfeito, presidente-rei, teimoso, homem de iras, mas não de ódios, amado por uns, odiado por outros, e também «velho macho latino e ibérico, latino», bon-vivant. Não santo, um ser humano, enfim.
Parece que tudo já foi dito, tantas foram as horas de informação radiofónica e televisiva, tantas foram as opiniões, tantos os textos, tantos os casos e situações relatados. Mas não. A História daqueles que tem capacidade e valor para a modelar, mudar, transfigurar ou perverter não se faz com uma dúzia, uma vintena de depoimentos. O filtro do tempo trará à superfície novas facetas e loas. Da multiplicidade e da diversidade se fará uma melhor síntese, uma aproximação mais completa à verdade, sempre relativa. Isso é lei da História. Da história de cada um, seja esse «um» quem for. E também de Mário Soares.
Muito se tem contado, muito ainda se contará. Coisas grandes, coisas pequenas, minudências, que a vida de um homem não é feita só de genialidades. Ambas fazem parte do todo da vida e também com elas se dá conteúdo ao retrato de uma pessoa. Há pequenos gestos que simples por definição mostram a essência do ser. Em Mário Soares eles existiam. Fossem palavras de incitamento, de coragem aos mais jovens ou a políticos em formação, fossem críticas, fossem actos próprios que outros dele contaram, como as suas sestas em momentos improváveis.
Há, contudo, uma acusação, para muitos, grave: a descolonização. Acusam-no de ser o principal responsável pelo regresso apressado e pela nudez de milhares de naturais do «continente». Muitos dizem que ela foi um desastre, uma calamidade. Te-lo-á sido. Soares só assumiu responsabilidade no caso da Guiné-Bissau. Angola e Moçambique foi responsabilidade do MFA e de outras forças políticas que em Alvor resolveram tudo sem precisarem dele. Dirão que são desculpas. A descolonização foi o que foi e dificilmente poderia ter sido de outro modo. E ela nem sequer foi boa para angolanos e moçambicanos. Os primeiros estiveram 13/14 anos em guerra civil e em Moçambique a Renamo ainda não aceita totalmente o governo da Frelimo. A descolonização não foi exemplar porque as circunstâncias assim o ditaram. As circunstâncias fazem o homem, a menos que o homem tenha força, talento, capacidade para mudar as circunstâncias. Mário Soares mudou o percurso da História de Portugal por mais de uma vez. Neste caso, não. Foi ultrapassado. Mas, depois, foi ele que reintegrou os regressados do Ultramar. Esqueceram-se? Se os ressentidos têm de culpar alguém, culpem Salazar e Marcelo Caetano. Estes sim, e em especial o primeiro, porque não souberam, não foram capazes de, embora atrasados, de dar um passo à frente para perceber os ventos da História. Fossem eles Mandela!…Salazar, o primeiro culpado, é o seu santo. Lamentavelmente. A descolonização devia ter começado no pós IIª Guerra Mundial como determinava a Carta da ONU. Outros países o fizeram ou tiveram de fazer. O povo português queria o fim da guerra. Muitos dos regressados da guerra gostavam de continuar a viver cómodos, felizes nas suas fazendas, a caçar pacaças, antílopes, enquanto milhares (só mortos foram mais de 8 mil!), então, na Metrópole, choravam – pais, irmãos, mulheres, filhos o que elevará a conta a várias dezenas de milhar – dia a dia a sua vida desfeita.
Clarice Lispector (1920-1977, escritora e jornalista nascida na Ucrânia e naturalizada brasileira) — escreveu: “ele foi sempre tudo porque foi sempre todo, um espirito livre, um sem-medo que ia, um sem-merdas que agia, um homem tão seguro do curso das ideias que não desistia de nenhuma e todas eram por Portugal!”
Soares foi tão simples quanto complexo ou tão complexo quanto simples. E sem dúvida “Soares é fixe.” Simplesmente.

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