Grande entrevista com o presidente da Câmara de Vila Real

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Notícias de Vila Real (NVR) – Passam agora três anos à frente da autarquia de Vila Real. Está satisfeito com o trabalho realizado?

Rui Santos (RS) – Seria muito redutor responder-lhe apenas sim ou não. O mandato que nos foi atribuído pelos Vila-realenses foi baseado numa série de compromissos que assumimos com eles e que estão cumpridos no essencial. Nesse aspeto, sim, estou muito satisfeito porque considero que essa era a minha obrigação. Mas, como é evidente, há sempre pequenas frustrações que (…)

NVR – Antes de mais, vale a pena perguntar-lhe se vai recandidatar-se nas próximas eleições ou já tomou essa decisão?

RS – O projeto que encabecei e que foi vencedor nas últimas eleições autárquicas era muito mais do que uma candidatura do Rui Santos ou do que uma candidatura autárquica de um partido. Para além do PS envolveu também muitos independentes, apoiantes de outros partidos políticos e cidadãos que a título individual nos incentivaram e deram apoio. Se eu continuar a (…)

NVR – O que entende ter feito tão diferente que outra pessoa não pudesse fazer estando no seu lugar?

RS – Essa é uma questão à qual eu não consigo responder. Ninguém consegue ser juiz em causa própria. Costumo dizer que nós somos nós e as nossas circunstâncias. Outros estiveram neste lugar no passado e trabalharam de forma diferente. Há sempre um cunho pessoal que é deixado neste tipo de funções, mas há uma série de condicionantes que influenciam o nosso trabalho. Eu procuro ser (…)

NVR – Como encontrou a Câmara e as empresas dela dependentes quando entrou, principalmente do ponto de vista financeiro?

RS – A Câmara Municipal tinha uma dívida a médio/longo prazo bastante elevada, mas dentro dos limites legais. Nestes 3 anos conseguimos abater quase 7 milhões de euros dessa dívida, baixando dos quase 22 para menos de 15 milhões de euros, melhorando muito a nossa capacidade de endividamento. Por outro lado, de acordo com a Direção-Geral das Autarquias Locais, em 2013 pagávamos a fornecedores em 35 dias e agora baixamos esse prazo para 2. Isso faz do município um (…)

Por exemplo, ainda recentemente recebemos muitas reclamações porque tivemos que corrigir a faturação na EMAR. Inexplicavelmente pagávamos todos a água com dois meses de atraso, o que do ponto de vista da gestão é inaceitável. Ninguém paga a luz ou telefone com dois meses de atraso. Isso aumentou momentaneamente o valor da fatura, mas essa questão está resolvida e as faturas mais recentes já têm valores normais. Já baixamos 8% o valor da fatura e brevemente haverá boas notícias  (…)

NVR – Teve de extinguir pelo menos uma das empresas municipais. Acha que estava a mais ou nem deveria ter sido criada?

RS – Essa questão é do foro legal, como sabe. Na verdade nós apenas terminamos o processo de extinção da MERVAL. A Culturval já tinha sido extinta, faltando a internalização dos seus trabalhadores no Município. O anterior executivo propôs ao Tribunal de Contas a fusão da MERVAL com a Vila Real Social, mas não foi aceite, nem fazia sentido. Portanto ficamos com o ónus de resolver problemas que outros tinham criado, nomeadamente (…)

NVR – Que outro tipo de problemas encontrou quando entrou na autarquia?

RS – Não quero particularizar nada, mas diria que após quase 40 anos de gestão autárquica de um só partido, houve naturalmente alguma estranheza à entrada de novos protagonistas, novas políticas e novas metodologias de trabalho. A resistência à mudança faz parte do ser humano. De uma forma geral todos os funcionários foram (…)

NVR – Vamos então ao balanço destes três anos. Que obra mais emblemática lhe deu prazer realizar ou terminar?

RS – É difícil responder a isso porque houve muitas e cada uma delas foi muito importante na sua área. Se pensar em termos de impacto futuro para Vila Real, talvez o Régia Douro Park se destaque. Era uma obra que estava praticamente abandonada e em risco de ser perdida. Assim que assumi funções direcionei para lá os recursos financeiros (…)

NVR – Mas para além dessa, terminou várias outras obras.

RS – Sim. Outra obra que estava parada há anos e que desbloqueamos imediatamente foi o Terminal Rodoviário do Seixo. As condições em que recebíamos os passageiros eram miseráveis. Desde os anos 80 que o processo se arrastava, mas com dedicação em menos de 3 anos já está a funcionar. Outro exemplo é o Centro de Ciência, no Parque Corgo. Uma importante infraestrutura pedagógica que estava parada e a desfigurar (…)

NVR – Houve também várias obras que foram já projetadas pelo atual executivo. Quais destacaria?

RS – Começaria talvez pelos 3 campos de futebol de 11, em relva sintética. Recordo que há apenas 3 anos não havia nenhum em Vila Real! Nenhum! Hoje várias centenas de crianças jogam no Calvário, no Abambres ou na UTAD em condições de topo. Foram obras projetadas e executadas por nós. Outra obra, importantíssima, são os 11 milhões de euros que estamos a investir em saneamento básico (…)

Estes exemplos são de obras efetivamente concretizadas ou em concretização. Obras materiais. Ao nível de projetos e candidaturas a fundos comunitários estão várias coisas em andamento e ao nível imaterial, como a Capital da Cultura do Eixo Atlântico ou a candidatura do Barro de Bisalhães a património imaterial da UNESCO, também muito foi feito. E deixei de fora uma intervenção de quase 1 milhão de euros que nos permitiu receber o Campeonato do Mundo de Carros de Turismo em Vila Real, na Rua Ator Ruy de Carvalho e na Alameda de Grasse.

NVR – Para quem disse no início do mandato que a Câmara estava muito endividada, esse volume de obras custou muito dinheiro. Como é que as finanças da Câmara suportaram e suportam tanta obra e tanto empreendimento?

RS – (…) Confesso que, quando penso nisso, fico espantado por não se ter feito muito mais no passado. Não compreendo! Outro exemplo: em 2012 o anterior executivo desperdiçou 10 milhões de euros de financiamento comunitário para a construção de uma zona empresarial. Mandou-os para trás! Bom, poderia dizer-se que fez outros investimentos que considerou prioritários. Mas quais? O que se fez de mais importante em 2012? Fico espantado quando ouço agora o PSD a pedir (…)

NVR – Mas vêm aí investimentos privados, como os dois hospitais. Qual foi o papel da autarquia na conquista desses investimentos?

RS – Os dois hospitais, o grupo JOM, o grupo Ibersol, O Call Center ligado à Altice/PT que já emprega 86 pessoas e empregará muitas mais… felizmente são vários os exemplos. O papel da autarquia é, por um lado, apostar na diplomacia económica, procurar investidores e apresentar uma estratégia. Em muitos dos casos somos nós que abordamos as empresas e apresentamos Vila Real como um espaço atrativo e dinâmico. Nem sempre somos bem-sucedidos, mas não deixamos nunca de tentar. Felizmente fomos (…)

NVR – De que forma considera que esses investimentos privados podem contribuir para Vila Real ganhar outra escala no contexto da região?

RS – Vila Real tem, historicamente, um estatuto de capital regional. Há uma série de serviços públicos que têm sede em Vila Real, há infraestruturas e equipamentos que geram centralidade em Vila Real. Por esse motivo temos que assumir também a responsabilidade de sermos o motor económico regional. Com a nossa dinâmica e crescimento económicos, criar contágios regionais. Tenho dito sempre que somos tão fortes quanto (…)

NVR – Espera a vinda de outros investimentos no futuro? O que pensa que a autarquia pode fazer para atrair esses investimentos?

RS – Claro que sim. Temos gente que trabalha todos os dias com esse objetivo em mente. Há contactos muito interessantes que estão em andamento e à medida que formos conseguindo concretizar investimentos, daremos conta disso mesmo. Agora não gosto de falar das coisas antes de elas serem sólidas. Houve quem o fizesse no passado, com maus resultados. Pela parte do Município estamos a criar condições para que não fujam mais investimentos. Novamente um exemplo (…)

NVR – A Câmara colaborou com a Igreja na aquisição do órgão sinfónico. Como são atualmente as relações entre a Câmara e as instituições da Igreja e da sua hierarquia?

RS – As relações são muito boas, do ponto de vista institucional. Como é óbvio uma instituição com a dimensão da Igreja Católica tem que ser tida em conta e é parceira do Município. Temos contactos frequentes, quer ao nível da Diocese, quer ao nível do Seminário e dos vários párocos espalhados um pouco por todo o concelho. Temos sido bastante interventivos ao nível das Comissões (…)

NVR – Daqui até ao final do mandato, que obras ainda pensa realizar ou concluir?

RS – Como já disse, há muitas coisas em andamento, há candidaturas cujo resultado aguardamos e que nos permitirão ir para o terreno com obras novas e importantes. Referi atrás o investimento que está a acontecer em saneamento, de 11 milhões de euros, mas candidatamos mais 6 milhões de euros nessa área, para o Vale da Campeã. Gostaríamos que essa obra fosse começada em 2017. O próximo ano será também o do início da requalificação da (…)

NVR – Tem feito um bom esforço para colocar Vila Real no mapa. Os custos compensam esse esforço financeiro da autarquia?

RS – Acho que mais do que um esforço temos conseguido, de facto, colocar Vila Real no mapa como nunca esteve. No mapa-mundo! Olhando apenas para o WTCC, verificamos que tem dezenas de milhões de telespectadores em mais de 40 países! Por tudo o que já foi dito, é claro que o esforço financeiro compensa. Um esforço que de resto em sequer é muito significativo e é partilhado com patrocinadores e fundos comunitários. Nada acontece por acaso. Se (…)

NVR – Vai continuar a tentar promover a cidade e a região no sentido de atrair mais investimentos?

RS – É claro que sim. Parece-nos que a estratégia seguida está a conseguir resultados interessantes, com rapidez. E é importante lembrar que começamos este trabalho do zero. Até há quem se sinta incomodado e diga que a nossa gestão é só festas, foguetes e facebook. É gente de vistas curtas e que estaria melhor a meio do século XX. Costuma dizer-se que “longe da vista, longe do coração”. Hoje em dia só alguém muito distraído (…)

NVR – Vila Real é uma cidade com poucos motivos de atracção, isto é com poucos motivos para que alguém se desloque aqui? Concorda?

RS – É verdade que não temos um grande castelo, uma muralha medieval ou um centro histórico altamente preservado. E se os dois primeiros nunca existiram ou já não existem há muito tempo, a desfiguração do centro histórico nas décadas passadas era escusada. Mas é a Vila Real que temos e é com esta que temos que trabalhar. Hoje o desafio é ao contrário: arranjar motivos para não visitar Vila Real! A dificuldade é escolher entre tantas ofertas (…)

Repare que em poucos segundos lhe dei bastantes exemplos de motivos para visitar Vila Real. E isso tem acontecido. É engraçado verificar que a perceção de quem está fora de Vila Real e nos vem visitar é oposta à da sua pergunta inicial. Não há ninguém que não fique espantado com tantos motivos que fomos criando para que se visite Vila Real .

NVR – Ainda assim considera que Vila Real beneficiaria de uma obra ou empreendimento que fosse falado e motivasse pessoas de fora a virem visitar a cidade? Que tipo de empreendimento?

RS – Eu penso que se está a referir a uma obra física, um monumento. Se existisse ou vier a existir, melhor. Mas voltando aquilo que lhe dizia há pouco, já não vamos a tempo para construir um castelo medieval. Aquilo que fazemos é melhorar constantemente o espaço público existente para que Vila Real seja uma cidade bonita, organizada e aprazível. E, já agora, fará sentido alocar uma parte significativa dos recursos financeiros públicos para um monumento (…)

NVR – Porque não fazer uma discussão pública, abrangente do ponto de vista partidário, sobre esse assunto? Será possível um acordo entre os principais partidos que no sentido de se porem de acordo em realizar um grande projeto ou uma grande obra para a cidade ou concelho que nos atire para um futuro mais promissor?

RS – Um futuro promissor passa pela aposta na criação de emprego e pela consolidação da estratégia que temos seguido, com bons frutos. Ainda assim, estou e sempre estive absolutamente disponível para conversar sobre boas ideias para melhorar o nosso concelho. Aliás, todos os anos, quando discutimos os Orçamento e Grandes Opções do Plano do Município para o ano seguinte, convido todos os partidos a (…)

Mas a sua pergunta leva-me a lançar aos outros partidos um desafio: porque não um acordo de princípio sobre o Hotel do Parque? Precisamos de resolver essa nódoa, seja através da demolição, reconversão ou qualquer outra solução. Aqui está um bom tema para por os partidos políticos a discutir e a acordar. Será que estamos de todos de acordo em gastar ali 7 ou 8 milhões de euros? E o que deixaremos de fazer, perdendo esses recursos financeiros? O desafio está lançado.

NVR – A Universidade, dadas as suas relações com a instituição, não pode dar uma ajuda nesse sentido?

RS – A Universidade tem sido fundamental para muitos dos nossos projetos. Já referi o Régia Douro Park, que é a maior parceria de sempre entre as duas instituições, mas poderia falar da disponibilização de Wi-fi gratuito no Parque Corgo ou a cedência da antiga Escola de Enfermagem para a instalação temporária do Contact Center que já emprega (…)

NVR – Sendo uma pessoa ligada desde sempre à função pública, que diferenças encontrou na autarquia diferentes dos outros organismos onde prestou serviço, em termos de administração dos recursos humanos e financeiros?

RS – Eu penso que a grande diferença que posso apontar, e já a referi, está relacionada com o facto de o Município ter tido quase 40 anos o mesmo partido a dirigi-lo. A democracia em Portugal tem 42 anos e no entanto eu sou apenas o terceiro Presidente de Câmara eleito em Vila Real. Isso levou a um certo imobilismo e a uma gestão focada em interesses político-partidários. Também se percebe que houve decisões tomadas e caminhos que não foram explorados (…)

NVR – Mas ser autarca dá-lhe mais liberdade de ação?
RS – Bom, se por um lado há uma forte autonomia das autarquias ao nível da gestão e das opções estratégicas, por outro as autarquias serão eventualmente, nos últimos anos, as instituições públicas mais escrutinadas que eu conheço. Todos os procedimentos das autarquias são auditados pelo Tribunal de Contas, pela Direção Geral das Autarquias Locais, pela Assembleia Municipal, pela oposição, enfim, tudo é analisado à lupa. Não há mal (…)

NVR – Vê-se um dia a ocupar um cargo mais alto na administração pública ou no Governo?

RS – Deixe-me começar por dizer-lhe que ser Presidente da Câmara Municipal da minha terra, da terra que eu amo, é um desafio fantástico. É um pouco cansativo, muitíssimo trabalhoso, mas é uma experiência inigualável. Estou muito grato por me ter sido dada esta oportunidade pelos meus conterrâneos. Mas com igual sinceridade lhe direi que não foi algo que eu tivesse sonhado desde pequenino. Não fiz um planeamento rígido (…)

NVR – Perante estes cenários que traçou ao longo deste entrevista, peço-lhe agora que dirija uma palavra que neste momento possa expressar os seus sentimentos em relação aos vila-realenses e ao futuro da cidade e da região.

RS – Os Vila-realenses conhecem-me, falam comigo todos os dias, elogiam ou criticam, mas percebem que eu sou um deles. Que as suas angústias são as minhas angústias e que os seus sonhos são os meus sonhos. Ninguém que sinta Vila Real como nós sentimos precisa de se explicar muito. Eu e a minha equipa fazemos aquilo que acreditamos ser o melhor para a nossa terra. Talvez não acertemos sempre, talvez nem toda a gente concorde com as decisões que tomamos, mas ninguém nos poderá acusar de (…)

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