Crónicas de Paris: história trágico-terrestre

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A actualidade deste fim-de-semana, marcada pelo trágico acidente que vitimou, numa estrada de França, doze portugueses emigrados na Suíça, faz-nos pensar nesta realidade histórica que desde os sécs XV e XVI leva os Portugueses a sair do seu país. Primeiro foram as Descobertas. Foram uma gesta sim, mas foram também uma « História Trágico-Marítima ». Depois do Oriente, veio o Brasil como porta de saída, para dar lugar à Europa, já no séc. XX. À partida clandestina de milhares de portugueses para França, na década de 1960, alguém chamou a « descoberta do caminho terrestre para a Europa ».

Com imenso trabalho e sacrifícios pessoais e familiares conseguiram muitos (nem todos) triunfar na vida. Ao mesmo tempo, injectaram milhões de contos (será que ainda poderei falar assim e ser compreendido ?) na economia portuguesa, principalmente na construção civil, na economia real, gerando riqueza, criando empregos.

Com o 25 de Abril pensaram alguns que se poderia inverter o ciclo. Em Agosto de 1974, o Primeiro-Ministro Vasco Gonçalves declarava num comício-festa dedicado aos emigrantes : « Prometemos à Pátria trabalho e justiça social para que os vossos filhos e netos não precisem de emigrar ». Esta perspectiva esperançosa perdeu-se no mar encapelado dos radicalismos revolucionários. Em contrapartida, foram os portugueses emigrados que, com o envio das suas poupanças, contribuíram decisivamente para evitar a ruptura da balança de pagamentos de Portugal. É certo que o I° Governo Constitucional, por exemplo, soube transmitir confiança e estimular esses envios com juros altos e isenções de impostos. O Estado pagava mas o dinheiro alimentava a economia nacional e mantinha-se em mãos portuguesas.

A sangria de recursos humanos prosseguiu mesmo durante os anos 1980, caracterizados pelas grandes obras de cimento e alcatrão. Eram necessárias, sim, mas nem todas foram feitas com critério e seriedade na utilização dos recursos. Grave foi, na mesma altura, os responsáveis políticos terem desistido da agricultura, a troco dos dinheiros da CEE. As consequências ainda estão à vista : despovoamento do Portugal Interior, abandono dos campos, incêndios devastadores.

A sangria demográfica prossegue. Os Portugueses de França, da Suíça, da Alemanha e outros, continuam ligados ao seu país. Já é tempo de definir e pôr em práctica uma política criteriosa e de longo prazo, com regras e objectivos a cumprir em prazos definidos. Há que unir os esforços de todos os Portugueses, no país e no estrangeiro. As ideias, as vontades e os recursos existem. É preciso escrever outra História.

Vem esta reflexão a propósito da trágica actualidade desta Páscoa. Não podemos admitir tantas vidas perdidas e tantas famílias enlutadas. E não digam que é o destino. Vítimas sim da ganância, da sede de lucros rápidos e da incúria. Até quando ?

  1. S. Gostaria de deixar aqui uma palavra de respeito e amizade solidária aos familiares das vítimas e também de sóbrio mas sentido aplauso à comunidade portuguesa de Moulins (França) que tão dignamente soube pôr-se ao lado deles.

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