Confiança nos nossos valores

1737

 

« Não invocarás o nome de Deus, em vão » (Êxodo, 20, 7)

Em Janeiro de 2015 foi atacado o jornal satírico Charlie-Hebdo. Nesse mesmo ano tiveram lugar (entre outros) os atentados de 13 de Novembro, em Paris, seguindo-se o do passado dia 14, em Nice. Nesta semana os mesmos bárbaros cobardes assassinaram o padre Jacques Hamel de oitenta e seis anos, em plena celebração da Missa. Um crime particularmente repugnante se pensarmos no lugar e no momento em que foi cometido e ainda no « modus operandi » dos assassinos. Há ano e meio que a França está na linha de mira do auto-denominado Estado Islâmico. Depois de terem enlutado a Festa Nacional de 14 de Julho, um símbolo histórico, os jiadistas pseudo-iluminados feriram agora a gente pacífica da França rural e os valores históricos do Cristianismo. Quer se queira quer não, os valores cristãos fazem parte da herança cultural e civilizacional de toda a Europa. Manoel de Oliveira lembrou-o, no Centro Cultural de Belém, há poucos anos, perante o Papa Bento XVI.

Os autores dos atentados pretendem impressionar, criar conflitos, lançar as pessoas umas contra as outras, instalar o caos.

Os fanáticos jiadistas odeiam tudo aquilo que o Ocidente e a França representam : o Estado laico, a primazia da cidadania, a separação das esferas religiosa e estatal. Rejeitam a educação para o pluralismo político e religioso e a tolerância recíproca. Não admitem o lugar da mulher nas nossas sociedades democráticas. Ora cada indivíduo é, acima de tudo, um cidadão, com liberdade de professar qualquer religião ou de não ter nenhuma.

A sociedade francesa e as nossas democracias navegam hoje entre dois perigos. De um lado os terroristas (jiadistas, neste caso) que matam e ferem atiçando ódio e violência, sob pretextos ditos religiosos. Por outro lado há demagogos e populistas que pretendem enveredar por uma via ultra-securitária e autoritária.

Os cidadãos não devem ceder nem à violência de uns, nem ao discurso de vingança dos outros mas manter a calma e prosseguir de cabeça erguida, dignos e vigilantes, com o nosso modo de vida de homens e mulheres livres. O Estado de Direito Democrático deve combater com as suas próprias armas, aplicando firmemente as suas regras. Ceder a uns ou a outros seria perder a própria alma e oferecer aos inimigos da Liberdade a vitória final, o domínio dos espíritos que eles querem obter custe o que custe. Com a nossa serena firmeza, estaremos à altura do momento histórico.

Paris, 30 de Julho de 2016

José Carlos Janela Antunes

  1. S. Hoje, domingo 31 de Julho, a TV destaca a Missa celebrada na catedral de Rouen, em honra e em memória do padre Jacques Hamel. Calcula-se em 1 700 o número de participantes, cristãos, muçulmanos e não-crentes. Gente de todas as cores de pele. Assim se cultiva a convivência republicana e democrática que a todos nos une. E religiões também podem contribuir para isso.

Deixe o seu Comentário

Comentário