A Noite Negra do S. Pedro

1057

 

– Noite Negra? Que é isso?

Foi assim que alguém reagiu quando  falei nela.

– Então, não sabe, não leu? Vem no programa das festas. –  disse eu.

– Olha agora!

–  É por causa do barro negro. Quem for à Praça, depois da meia noite,  deve ir de negro, no dia 28 – esclareci.

Pois é. Chamaram-lhe  Noite  Negra. Era assim que vinha  nos desdobráveis distribuídos à população. Noite Negra! Raros sabiam, porque não tinham lido, certamente, o programa.  A mensagem não  estava a  passar.   Eu pensei  no assunto. À ideia  veio-me outra noite,  a Noite Branca  de Paris, em  2009, na Praça da Concórdia, quando em passeio nocturno  deparámos  (quem comigo  estava ou  com quem estava eu)   com uma maré branca de milhares de pessoas. Soubemos que vinham  de várias cidades para um convívio anual. Convívio, disse. Não para entrar no Guiness.  Cada um trazia o seu «farnel», recheado do «bom e do melhor», que ali não havia restaurantes para servir  «à la carte»- Não era um S. João à Vila Real. O glamour era outro.  Lembrei-me da noite branca de Braga de 2015 (em Penafiel aconteceu sábado e em Guimarães  vai acontecer em breve).

Ora eu imaginei (ainda que o preto não me entusiasmasse) que ia haver mesmo a tal noite negra,  com algum charme, em nome não do Santo, mas em prol do «púcaro» de Bisalhães, porque  há um movimento para fazer da sua confecção património  cultural imaterial da Unesco. Então vesti-me de negro. Se era assim que tinha de ser…  Antes da meia-noite,  porque tudo aconteceria depois da meia-noite, depois das 12 badaladas, desci pelas ruas da Senhora da Conceição e de S. Pedro,  aspirando o aroma doce das tílias,  quando  já muita gente regressava ao conforto do lar. Desemboquei no topo da Avenida Carvalho Araújo. Da Capela Nova já não  se ouvia a banda a tocar. A animação nocturna desfazia-se, mas eu pensava  que a  Noite Negra ia mesmo acontecer. Afinal estava no programa. Alguém estava no organização. Aproximei-me da (dita) Praça do Município. Jogava-se nela o  panelo e à volta  de negro …  de negro, meia dúzia de pessoas,  Ora meia dúzia  não faz uma multidão. Aguardei que os minutos se sucedessem uns aos outros e como  nada  havia de  novo a oeste  fui revisitar as ruas que não vira de dia. Talvez fosse cedo, pensei.  O Largo do Pelourinho ia-se despindo e, logo, despedindo de uma das suas noites desiguais às do resto do ano, quando depois das 19 horas se entrega à solidão fria de só ser … o pelouro de ninguém. E fui andando, andando e contando, contando e vi muito negro, negro a mais ainda que houvesse muita luz. Negro a mais tal como a mais havia  cintos, malas e óculos de sol… No Largo, onde antes o negro era um mancha de barro, olhei o topo da igreja, o entablamento em curva e contracurva. Lá estavam S. Pedro, no meio, com dois querubins, um de cada lado, a não saberem o que fazer da noite.  Bem olhavam para baixo a ver se  descobriam uma pichorra com água fresca… Um tinto  ou branco fresco do Douro também não iria mal  com um covilhete   fosse da Pompeia ou da Gomes… mas  quê?   Nem pichorra, nem água, nem vinho, nem nada, que isto de pucarinhos  já foi…

Regressei à Praça por outro caminho. E  voltei a ver tudo a negro … e mais óculos e cintos e malas…

Afinal a Noite Negra  havia-a nas esquinas, no meio das ruas, sentada ou de pé. Mas será que era a isto que se referia o programa?  Da Praça (dita) do Município regressei a casa. Fui dizer adeus a S. Pedro, ainda a tempo de o ouvir dizer aos querubins:

– Pois é, meninos, esta minha festa, já não é o que era. E vós bem o sabeis.

O  querubim da direita cantou:

Ó meu rico S. Pedro

Muito há pra  nos encantar

Se não há pucarinhos

Não há porque chorar.

 

E o da esquerda:

Aceitemos os novos tempos.

Não temos outra saída,

Aqui serenamente

Na nossa santa vida

 

E ambos:

Ó meu rico S. Pedro

A festa não vai findar

Enquanto houver banda

No coreto a tocar.

 

Deixe o seu Comentário

Comentário